Há poucos anos uma
declaração de Chico Buarque agitou os meios musicais brasileiros.
Chico anunciava certo desencanto com o formato tradicional da MPB, apontando
para um esgotamento das fórmulas tradicionais neste início de
século.
Causou polêmica, claro,
mas não estava sozinho. Outros observadores, participantes ativos ou
não da cena musical, já especulavam sobre a extinção
de alguns gêneros e o cansaço natural de outros. A maré
cada vez mais intensa de pagodeiros e breganejos parecia isolar os últimos
defensores de uma suposta “música popular de qualidade” em
ilhas cada vez mais esparsas.
Em qualquer mesa de boteco
vamos encontrar a velha divisão entre apocalípticos e integrados
da música brasileira. Enquanto os primeiros se escudam na audição
saudosista dos clássicos (conceito tão amplificado que pode abranger
até canções feitas há pouquíssimo tempo),
os últimos mergulham bravamente no oceano poluído da indústria
musical radiofônica, certos de chegar a praias mais ensolaradas.
Ouvir o CD de um autor estreante
como Beto Furquim (Muito Prazer, independente, 2008) nos faz pensar nesse trabalho
de resistência que alguns compositores empreendem, buscando um pacto entre
canção de consumo e qualidade musical e poética.
Beto Furquim demonstra sua
filiação a uma linhagem que se desdobra desde os anos 60, quando
autores como Caetano, Gil e os mineiros do Clube da Esquina mesclaram influências
nacionais e internacionais, criando novos parâmetros de canção
pop brasileira.
Próximo ao grupo
paulista de Suzana Salles (com quem estreou nos palcos, tocando violão
e guitarra, em 1986), Ná Ozzetti e Luiz Tatit, e com marcada influência
de Zé Miguel Wisnick, Beto desenha canções delicadas e
sem arestas, sem furor nem excesso, de polida simplicidade.
O CD é fruto de um
prêmio da Secretaria Estadual de Cultura de SP, de 2007. Embalado em belo
trabalho gráfico de Alex Cerveny, abre com a ótima e gingada À
Beira Mar, arranjada por Mário Manga. Pouco depois brilha Estrela da
Manhã, interpretada por Mônica Salmaso, tal qual foi defendida
no Festival de Música Brasileira da TV Globo, em 2000. Beto canta todas
as outras, e tem o dom de torná-las suaves, mesmo quando entoa letras
inquietantes como Olhos de Morcego.
Há alguns OMNIs (Objetos
Musicais Não Identificados), como uma melancólica canção
chinesa (Beto estudou chinês na USP!) ou uma oblíqua canção
roseana (Margem), que faz interessante contraponto à canção
de Caetano/ Milton sobre a Terceira Margem do Rio.