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Poesia livre e mistura
de ritmos marcam Muito Prazer, CD de estréia de Beto Furquim
Dizer que este é o primeiro CD de Beto Furquim pode dar a falsa impressão
de que o cantor/compositor está em início de carreira. Na verdade,
ele pôs o pé na estrada há 22 anos: estreou no palco em 1986,
tocando guitarra e violão na banda que acompanhava a cantora Suzana Salles
(que incluiu no repertório uma canção de Beto, “Logo
você”). Em 1990 compôs a trilha sonora de Cachorros me Mordam,
de Laís Bodanzky, e a música “Motoboy” para o vídeo
Profissão: perigo, de Carlos Baliú.
Como se vê, suas canções há muito fazem parte do repertório
brasileiro de música, interpretadas por cantoras exigentes como Ná
Ozzetti, Mônica Salmaso e a própria Suzana Salles. Mônica,
por sinal, foi finalista do Festival de Música Brasileira da TV Globo,
em 2000, com “Estrela da manhã”, de Beto, que ela também
canta em Muito Prazer, com Benjamim Taubkin ao piano.
A classificação entre os finalistas do festival da Globo não
foi um caso isolado na carreira de Beto. Além de ter um público
cativo, que o acompanha há 20 anos nos shows em bares, no SESC e no Crowne
Plaza, ele coleciona prêmios. Foi vencedor do Projeto Nascente (USP/Editora
Abril) em 1993, na categoria compositor, e do Prêmio Estímulo de
Música, da Secretaria Estadual da Cultura de São Paulo, em 2007.
Foi com a verba desse prêmio que ele finalizou o CD, produzido por Mário
Manga, do Premê.
Beto Furquim é paulista da capital. Divide seu tempo entre as letras (é
jornalista e editor de livros) e a música (compõe, canta e toca
violão). Sua formação musical foi marcada pela diversidade.
Antes de concentrar-se na canção popular, teve aulas de teoria musical,
harmonia, percepção, história da música e técnicas
de canto, violão popular e erudito, guitarra, trombone e percussão.
Entre seus professores figuram nomes como Ulisses Rocha, Luiz Tatit, Ná
Ozzetti, Ricardo Breim, José Miguel Wisnik, Félix Wagner, Bocato
e Gilberto Gagliardi.
Essa diversidade reflete-se no CD, com a bem-vinda mistura ritmos e estilos. Do
batuque brasileiro atualizado a “Jing Ye Si”, canção
chinesa do século VIII (composta por Li Pai, o mais famoso poeta da dinastia
Tang) Beto esbanja versatilidade e talento. Quer uma “palhinha”? Clique
www.myspace.com/betofurquim e saboreie algumas das belas canções
de Muito Prazer.
Sonho que se sonha junto... vira CD!
Beto Furquim conta, para o Jornal da Granja, como foi a experiência de realizar
o sonho do primeiro CD. Leia trechos da entrevista exclusiva.
“O CD é um sonho bem antigo. Por isso prefiro chamar de álbum,
pois, quando comecei a pensar nisso, a idéia era fazer um vinil. Demorou
tanto que quase vira MP3, agora que o CD parece destinado a desaparecer. Mas eu
gosto dessa coisa da capa, do encarte, do objeto palpável, que a gente
pode dar de presente. Melhor ainda se for meio artesanal, como acabei fazendo.”
“A história começou há quatro anos. Como meu dia-a-dia
de trabalho não é com música, cuidar de tudo seria muito
difícil. Então aceitei a sugestão de um amigo: procurar o
Mário Manga para ser meu produtor. Adorei a idéia de ter uma pessoa
com uma trajetória musical tão rica e interessante cuidando dos
arranjos, das gravações, da convocação dos músicos,
da mixagem. Achei que isso só valorizaria as composições,
e fiquei muito feliz de ver que deu supercerto. Mas ele não produziu o
disco todo. No final de 2006, resolvi agilizar a finalização do
projeto para tentar participar de um concurso importante, da Petrobras, e o Manga
estava ocupadíssimo, como sempre. Foi então que convidei o Leandro
Bomfim, outro músico que admiro muito, para assumir 5 das faixas do CD,
uma contribuição também muito rica, que adorei. No fim não
deu tempo de participar do concurso da Petrobras, mas esse desafio teve o papel
daquela cenourinha que fica pendurada na frente do cavalo preguiçoso nos
desenhos animados. O projeto deu uma andada de grande valor estratégico:
já não tinha mais volta. Mas a grana acabou, e comecei a cogitar
seriamente distribuir as músicas só pela internet, em MP3. Afinal,
meu objetivo nunca foi ganhar dinheiro com minhas músicas, e sim botá-las
no mundo.
“Mesmo para isso faltavam algumas despesas: arrematar algumas faixas e fazer
a masterização. Então apareceu, no fim de 2007, o Prêmio
Estímulo de Música, da Secretaria Estadual da Cultura, voltado exatamente
para quem estava fazendo o primeiro CD. Caprichei no projeto, que foi um dos selecionados
para receber um apoio em dinheiro de R$ 25 mil. Dava para as despesas que faltavam
e ainda para fazer uma tiragem razoável de CDs de verdade, com capa, encarte
bonito, tudo a que se tem direito. Porque hoje em dia o CD só se justifica
assim, gostoso de ficar olhando, manuseando. Convidei o Alex Cerveny, grande artista
plástico, amigo meu, e ele sugeriu a parceria com outro artista ótimo,
o Vanderlei Lopes. Eles fizeram um trabalho de muito bom gosto, um tempero delicioso
entre a simplicidade e a sofisticação. O álbum ganhou muito
com isso, até em relação ao marketing, pelo que tenho notado:
as pessoas vêem e querem abrir, olhar, já ficam com vontade de escutar
a música.”
“A Mônica Salmaso e o Benjamim Taubkin interpretaram "Estrela
da manhã" no último Festival da TV Globo, em 2000. A gravação
que está no CD é dessa época: é um estudo para a interpretação
do festival. Só que no festival eles fizeram em quinteto: além da
voz da Monica e do piano do Benjamim, teve o contrabaixo acústico do Rodolfo
Stroeter, o acordeom do Toninho Ferraguti e a flauta do Teco Cardoso. Adoro as
duas versões, mas a primeira tem um valor especial. A Monica me mostrou
nos bastidores de um show no Teatro Cultura Inglesa, um tempo antes do festival.
Era o primeiro contato que eu tinha com a interpretação arrebatadora
que ela deu à música. Fiquei emocionadíssimo: ela me mostrou
que a canção era muito mais bonita do que eu achava. Então,
quando estava montando o repertório do CD, tomei coragem e pedi a ela,
ao Benjamim e à Biscoito Fino, a gravadora com a qual ela mantém
contato, autorização para usar aquela gravação. O
incrível é que era apenas uma gravação demo, mas não
ficou devendo nada às outras mais produzidas. Aliás, acho que é
a faixa mais bonita do álbum.”
“Outra participação preciosa foi a do Maurício Pereira,
que conheci no mesmo curso de percussão onde ele acabou conhecendo o André
Abujamra, que se tornou seu parceiro por muitos anos no Mulheres Negras, ‘a
menor big band do mundo’. Em princípio convidei o Maurício
para participar como instrumentista, pois a maioria das pessoas o conhece apenas
como cantor. Claro que depois pedi para ele também cantar, mas a voz acabou
tendo um efeito de apoio ao solo de saxofone soprano que ele fez. Foi um toque
precioso na canção ‘Longe do planeta’ .”
“Valeu muito a pena ter contratado produtores experientes. Eles foram bem
além do que imaginei para as canções e as enriqueceram muito
com seus arranjos e idéias. Fora que eles fizeram tantas tarefas (arranjar,
arregimentar os músicos, gravar, editar, mixar e mesmo tocar alguns instrumentos)
que, na ponta do lápis, é um cachê muito bem pago.”
“Foi importante trabalhar com a idéia de projeto, prevendo os custos
totais, registrando cada despesa. Quando apareceu a oportunidade de disputar o
apoio da Secretaria Estadual da Cultura, eu estava com tudo preparado para explicar
que o projeto era viável. Também foi bom montar uma página
no Myspace. É um ótimo canal de divulgação e a visibilidade
é um estímulo para caprichar nas gravações.”
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